GRENOBLE - FRANÇA

Grenoble, Chartreuse e Vercors: um amor a segunda vista.
Muralha de Vercors vista do cume do Grand Veymont. 
Grand Veymont

Eu viajei pra Chamonix por 4 anos seguidos, de 2009 a 2012. Foram viagens curtas de escalada, dessas que eu me presenteava uma vez por ano para curtir minha paixão pelas montanhas. Em 2013 quebrei essa sequência para fazer uma viagem com a Mariana pelas Dolomitas. E foi durante essa viagem, visitando Innsbruck, na Áustria, que nos fizemos a seguinte pergunta: e se morássemos nos alpes?

 

Dito e feito. Nos mudamos pra Grenoble, na França, em agosto de 2014. Eu vim pra cursar um programa de MBA, mas Chamonix, e os alpes, não saiam da minha cabeça. Eu já sabia que o calendário de aulas não seria nenhuma moleza, mas que mal faria um final de semana no massif?

 

Fica aqui do lado, só duas horinhas de carro. Eu já conhecia Grenoble, mas sabia pouco a respeito das montanhas da região. Havia muita coisa a ser explorada por essas bandas mas, verdade seja dita, Chamonix era meu foco.

 

Grenoble é cercada por três maciços: Vercors a oeste, Chartreuse ao norte e Belledone a leste. São montanhas com altitudes modestas, se comparadas com as elevações dos alpes. Digo "dos alpes" porque Vercors e Chartreuse não são consideradas formações do arco alpino. Nada de glaciares, gretas, seracs, ou cumes cobertos com sorvete de creme no verão. E isso fazia toda diferença no meu imaginário. Pra mim, boa parte da aura de Chamonix girava em torno desse ambiente diferente. Digo: diferente do que temos no Brasil. Neve, gelo, glaciares, seracs. Isso tudo cria uma atmosfera única, mesmo se você estiver fazendo uma escalada em rocha sem colocar o pé nesses elementos. Escalar a Aiguille du Peigne, por exemplo, contemplando a face norte da Aiguille du Plan e da Aiguille du Midi, admirando todos aqueles glaciares suspensos, ouvindo o estrondo de pedras e avalanches deslizando tão perto da sua escalada tranquila e serena. Isso sem falar de toda história do montanhismo relacionada ao lugar, além da própria localização da cidade, espremida entre montanhas, cercada por penhascos e línguas de gelo. É maneiro demais.

 

Voltando a Grenoble: o MBA começou em setembro e não demorou pra eu perceber que ir pra Chamonix ia ser complicado. O programa era puxado, em tempo integral, geralmente com finais de semana dedicados a trabalhos e estudos. O outono também já se aproximava e meu orçamento era curto. Um final de semana em Chamonix não é nada barato, ainda mais se for o caso de pegar algum teleférico pra chegar na base da escalada. Quase proibitivo pra quem tá com a grana contada pra viver mais de um ano sem receita.

 

Explorar a região de Grenoble era obviamente a coisa mais interessante a se fazer. E não demorou pra eu me arrepender por ter passado tantos anos negligenciando a beleza dessas montanhas.

 

Os maciços de Chartreuse e de Vercors são verdadeiros paraísos. Durante um ano eu fiz quase 40 cumes por aqui. Nada de teleféricos ou hordas de turistas. Muitas vezes eu estava sozinho na montanha. Caminhava quilômetros sem encontrar uma alma viva, até mesmo em finais de semana. Praticamente todos os meus acessos foram ou por transporte público, ou completamente a pé partindo de casa. Em apenas duas ocasiões (duas em 38 pra ser mais preciso) aluguei um carro. E fiz apenas um bivaque.

 

Não teve jeito. Me apaixonei pela acessibilidade e pela beleza da região. Vercors e Chartreuse são parques lindíssimos. Paisagens completamente diferentes de Chamonix, mas tão impressionantes quanto.

Granier visto do cume do Pinet. Ao fundo, o Mont Blanc.

Planícies elevadas de Chartreuse vista da Lance Sud de Malisard.

E eu só comecei a apreciar a região quando cheguei aqui e fui conferir esses lugares. Chartreuse e Vercors são parques super conceituados entre os franceses. O Mont Aiguille é considerado o berço do alpinismo e da escalada em rocha: sua primeira ascensão foi em 1492. Lionel Terray, lendário escalador Francês, morreu na Arête du Gerbier, em Vercors, em 1965. Ou seja, além de muito charme e beleza, a região também tem a sua história.

 

O legal daqui é que a grande maioria dos picos são bem tranquilos. Se você tem um preparo razoável, e se está acostumado com alguma exposição, não vão faltar montanhas. Não vou nem falar de escalada em rocha, pois eu nunca levei minha corda pra passear por essas pedras. Mas é claro que também tem muita coisa.

 

Aqui eu comecei a apreciar mais estar sozinho, a fazer trilhas em cristas, caminhar por arestas, costões, trepa-pedras. A atmosfera e a experiência passaram a contar mais do que a escalada em si. Foi uma mudança de mentalidade interessante. Vou dar um exemplo: em Três Picos, no Rio, eu achava mais interessante fazer vias diferentes no Capacete do que explorar lugares que eu nunca tinha ido no mesmo Parque. Resultado: eu nunca fui na Caixinha de Fósforo, mas fiz o Capacete por 7 vias diferentes. E por ai vai.

 

Mas vamos ao que interessa: dos meus 38 cumes nos arredores de Grenoble, 33 foram em solitário e apenas 5 envolveram algum tipo de escalada mais exposta, no máximo um 4° grau.

 

Vejam o Neron.  É uma montanha pequena, com 1298 m. Como Grenoble está a 240 m, o Neron é um verdadeiro paredão de 1000 m dominando a parte norte da cidade. Ele chama a atenção de quem entra na cidade pela estrada que vem de Lyon. A base da trilha, que deve ficar a uns 500 m de altitude, fica a 45 minutos de caminhada da porta da minha casa. E a trilha, com alguns trechos de escalada fácil, é alucinante.

 

E o Grand Veymont? Com 2341 m, essa é a maior montanha de Vercors. Não precisa ser nenhum super-homem pra chegar lá, só ter disposição pra encarar um desnível de 1200 m. Outro passeio maneiríssimo, com um visual maravilhoso.

 

Grenoble é um prato cheio pra qualquer montanhista. Tem brincadeira pra todos os níveis e pra todos os gostos. O que mais me marcou por aqui foi a possibilidade de fazer trilhas pesadas, encarando belos desníveis, cristas expostas, lances de escalada, tudo com uma mochila leve e pequena, sem nenhum equipamento específico. A mistura perfeita de paisagens espetaculares e algumas doses de adrenalina.

 

O texto carrega um certo tom de despedida. Hoje me despeço da cidade, de mudança pra Paris. Fazendo malas e arrumando caixas, não tive tempo de fazer mais um passeio pela região. Meu último cume por aqui foi o Granier, no final de julho.

 

Isso sem contar alguns dias que passei no Massif des Ecrins, um pouco mais ao sul. Mas essa história merece um relato mais completo, que deixo pra próxima coluna.

 

Texto: Guilherme Ramos

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